Bobo da Corte

Selecionado no 13º Concurso de Poesia da Biblioteca Popular de Afogados – 2011

 

Larguei minha melhor piada.

O Rei olhou-me sonolento

A Princesa desanimada

Fez sequer um movimento.

 

Contei outra na sequência.

O Rei pareceu-me adormecido

A Princesa com displicência

Brincava no próprio vestido.

 

Declamei meu repertório.

Todas anedotas que conheço.

O desinteresse era notório.

Desde o fim até o começo.

 

Apelei então aos malabares.

Pulei, virei, saltei, girei, voei.

Tentei atrair os seus olhares.

Em vão. Parei, fitei, gritei:

 

Que fareis para agradar a vós?

Estão mortos ou algo assim?

O Rei mandou-me baixar a voz.

E replicou ao meu frenesim.

 

Bobo, és tu mal sucedido.

Fazer-me rir haveria meio.

Se nunca tivesse recebido.

Estas piadas por e-mail.

 

E meu show de mágica?

As cambalhotas geniais?

Sinto que na prática.

Não viram nada demais.

 

A Princesa foi comedida.

Na resposta que proferiu.

Sem palavra desmedida

Explicou-me porque não riu.

 

És talentoso o bastante.

Toca muito bem o alaúde.

Mas não é interessante

Pois já vi igual no youtube.

 

O Rei assentiu num gesto.

Surgiu um homem em farda.

Apesar de meu protesto.

Fui expulso por um guarda.

 

Vamos andando, palhaço.

Você não agradou ao Rei.

Não passas de um devasso

Ao qual nunca mais verei.

 

Encarando o brutamonte.

Com medo não fiquei.

Não importa quem me afronte.

Com firmeza retruquei.

 

O Rei não me quer aqui

Mas com a lança não me cutuque

Senão falarei mal de ti

Em meu perfil no facebook.

 

Agora estou cá chorando

Sem sono e desconsolado.

Passarei a noite twitando

Na tag #bobodesempregado

 

FIM