Cuca Vem Pegar

Publicado em Terrir Editora Estronho – 2013

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O Pomo Catálogo da Discórdia

– Vampiros! Lobisomens! Fadas! Duendes!

Cuca folheava o catálogo de literatura fantástica com furor…

– Elfos! Demônios! Fantasmas! Anjos!

…não pela primeira vez, desde que chegara a suas mãos, por acaso.

– Dragões! Ogros! Unicórnios! – dentes rangendo – Até unicórnios!

A revista voou sobre a mobília escassa e rústica da caverna.

– Ninguém mais sabe quem eu sou! – desabou sobre uma cadeira. – Ninguém mais fala de mim! Buáááááá!

Tentou conter o choro esbofeteando-se.

– Pare, idiota! Pare! Pare! Pare! – um tapa na própria fuça para cada “Pare!” – Por isso não escrevem sobre mim! Quem vai ler sobre uma velha chorona?

Levantou-se. Deu alguns passos ao redor da mesa.

– Tudo culpa sua, senhor Monteiro Lobato! Culpa sua!

Franziu a testa. Continuou sua marcha e monólogo:

– Maldita a hora que aceitei participar de seus livros! – arrastava a grande cauda pelo chão de terra batida – Virei uma piada, uma bruxa engraçada, um jacaré colorido! Eu nunca deveria ter aceitado! Nunca!

Chutou a velha e forte cadeira. Não foi uma boa ideia.

– Aaaaaiiiii!!!

Pulou e rodopiou agarrada ao pé latejante. Deu com a cauda num móvel, derrubando caldeirões e cumbucas.

– Sou uma piada mesmo! – suspirou – A culpa é minha. Se eu tivesse ficado apenas nos livros… Mas, aquela proposta da televisão… Foi meu grande erro.

Baixou a cabeça, procurando algo inexistente no chão.

– Não nego que tenho saudade das entrevistas, dos autógrafos, das cartinhas dos fãs… era tudo muito gostoso. Se não tivessem infantilizado tanto meu personagem…

Pegou o catálogo, folheou-o novamente, desta vez, com calma.

– Mas, vou dar um jeito nisso. Ah, se vou!

Ecoturismo

Os jovens rolaram caverna adentro.

– Ahahahah! – Cuca soltou sua risada mais maquiavélica – Sejam bem-vindos!

Mirela abrigou-se atrás do irmão.

– Está com medo, querida? – Cuca saboreava o momento.

– Q-q-uem é você? – perguntou Felipe.

– Não sabe quem sou, criança infeliz?

– Nunca vi mais gorda. – Felipe disse baixinho, o suficiente para Cuca fingir que não ouviu.

Mirela, curiosa, saiu de seu esconderijo e encarou a bruxa:

– Cabeça de jacaré, vestido maltrapilho, cabelo mal cuidado, unhas enormes e sujas. Ah, não! Ah, não! – Mirela escondeu o rosto entre as mãos – Aqui não tem salão de beleza!

Cuca aproximou-se:

– O que você está pensando, garota? Que veio brincar de princesa? – puxou-os pelos braços – Vocês são meus reféns! Meus prisioneiros! Entenderam?

Tentaram responder, mas Cuca continuou esbravejando e arrastando-os.

– E se quiserem arriscar uma fuga…

Cuca lançou-os para fora da caverna.

– Eis o que os aguarda!

Sob a luz ofuscante do sol, procuravam decifrar a paisagem: seres rastejantes pela relva, movimentos furtivos entre as árvores, silvos e guinchos oriundos de todos os cantos. Felipe segurou a mão de Mirela. Para deleite de Cuca, estavam prestes a gritar. E gritaram:

– Viva!! ECOTURISMO!!

– Eco-quê?! – pensou Cuca, enquanto, boquiaberta, observava os irmãos correrem alegremente pela perigosa vegetação.

 

Magia negra

– Poxa, o que fizemos de errado? – questionou Felipe.

– Não sei, mas precisava nos prender numa gaiola? Que bruxa-jacaré mais chata! – Mirela também mostrou sua insatisfação.

Cuca, toda faceira, admirava os jovens encarcerados. A pequena jaula balançava ao sabor do vento, presa a um dos galhos da enorme árvore à entrada da caverna.

– Ahahahah! Chata, não! Sou malvada! Mal-va-da! E vou recuperar minha fama, graças a vocês!

– Você vai nos colocar no seu blog?

– Eu sei lá o que é blog, menina! Vou colocar vocês é na barriga dessa onça, isso sim! – Cuca apontou para o predador deitado sobre a relva.

– Olha que linda, Fê!

– Demais, Mi! Demais! – disse Felipe, já tirando fotos com seu celular.

“No meu tempo crianças morriam de medo de onça.” pensou Cuca, antes de iniciar seu discurso:

– Acho que não entenderam! – pigarreou – Vocês, crianças lindas e saudáveis, filhos de ilustre político, sumiram sem deixar pistas. Simplesmente desapareceram, chisparam, tomaram chá de sumiço!

Cuca deu uns passinhos.

– Daqui algum tempo o pai de vocês receberá um comunicado: “Nunca mais verá seus filhos”.

Cuca fazia caras e bocas para encenar a reação dos pais dos jovens.

– “Oh, o que terá acontecido com meus filhinhos? Oh, onde estarão minhas pobres crianças?”

Mirela e Felipe acompanhavam atentos.

– E depois de gerar um grande mistério, revelo que EU estou por trás de tudo!

Não compreendiam o objetivo daquele teatro.

– O alvoroço será enorme. Implorarão para que eu liberte os reféns, sem saber que na verdade – Cuca fitou os irmãos – vocês estarão na barriga da onça!

Enfim, perceberam o perigo da situação.

– Vocês nunca voltarão para casa. Nunca serão encontrados. – Cuca parecia hipnotizada – Será uma nova lenda. Uma história que atravessará gerações. Um mistério eterno!

– Ei, dona bruxa-jacaré. Se quer ficar famosa, é melhor criar um site.

– Também acho. Faria mais sucesso do que essa estória boba de onça.

Os comentários tiraram Cuca de seu transe.

– Quem pediu a opinião de vocês? Não entendo nada dessas coisas estranhas que falam. E tem mais, parem com esse negócio de bruxa-jacaré. Meu nome é Cuca e…

– Cuca?! A Cuca do Sitio do Picapau Amarelo?! – Mirela e Felipe não esconderam a surpresa.

– S-sim. – respondeu Cuca, titubeante.

– Você é meio diferente da TV. – observou Felipe.

– Nem me lembre daquelas atrizes horrorosas. Me dá comichão. – a bruxa coçou o braço esquerdo com as garras da mão direita.

– Então você é a Cuca de verdade? Que legal! Dá um autógrafo? – Mirela se empolgou.

– O pessoal da escola vai pirar quando souber que fomos sequestrados pela Cuca! – completou Felipe.

– Não tenho caneta, mas… como vocês me conhecem?

– Lemos bastante Monteiro Lobato na escola.

– E vimos vários episódios do programa do Sítio na internet!

– Você sempre se dá mal!

Mirela e Felipe riram; Cuca não.

– Hum-hum. E é por isso que vocês estão aqui. Para acabar com essa imagem da Cuca que sempre se dá mal!

– Mas, é muito engraçado! – os jovens se divertiam com as lembranças do Sítio.

– Quero ver rirem de mim – Cuca inspirou profundamente – depois que virarem comida de onça!

Mirela não aguentou o berro da bruxa, tampouco o rugido do felino:

– Snif! Snif! Por que você vai fazer isso conosco? Snif!

– Olha o que você fez, Cuca! – Felipe ofereceu a ponta da camiseta para Mirela enxugar as lágrimas.

– Eu sempre torcia por você. Snif! Achava que você não era má de verdade. Se te tratassem com amor e carinho, você seria legal. Snif! Agora entendo por que ninguém te queria bem. Snif.

– Ei, também não é assim. Eu só quero… Eu apenas não queria… – Cuca ficou com dó da menina.

– Cuca, está na cara que você não sabe o que quer. – Felipe respondeu seco, enquanto cuidava da irmã.

– Ei, eu sei o que quero! Quero que todos se lembrem de mim como sou: uma bruxa malvada e não uma jacaré-palhaça!

Felipe ficou bravo. Pegou seu celular e começou a teclar sob os olhos curiosos de Cuca.

– Será que vai funcionar, Fê? – Mirela disse, soluçando.

– Vai sim. Esse é o celular que uso para acampar. Funciona por satélite, pega em quase todo lugar. – mal terminou a frase, virou o visor para fora da gaiola.

Cuca se aproximou e viu sua imagem, ou melhor, a imagem da Cuca dos programas de TV.

Wallpapers, desenhos para colorir, emoticons, jogos, grupos de discussão, sites, blogs, ícones, seguidores, vídeos, comunidades, animações, quadrinhos… – Felipe descrevia cada item.

Cuca não compreendia muita coisa, mas algo estava bem claro:

– As pessoas te amam! – Felipe declarou rispidamente – O que mais você quer?

Cuca pegou o aparelho e voltou a arrastar a cauda pela relva, sem tirar os olhos da pequena tela.

– Eu não tinha ideia. – resmungou.

– Imaginei. Vivendo isolada, como ia saber?

– Não adianta, Fê. Acho que ela é malvada de verdade, não tem nada a ver com a Cuca do Sítio do Picapau Amarelo.

– Que decepção. – Felipe recostou-se num canto da gaiola.

– Cruz-credo! Que magia negra é essa? Ai! Ai!

 

E agora Josacaré?

O celular parecia um sabonete molhado nas mãos de Cuca. Felipe ria com gosto. Mirela esqueceu, por um momento, o choro.

– Aperta o verde! – Felipe orientou e Cuca obedeceu.

– Alô? Alô? – A voz emergiu do celular.

Cuca, apavorada, olhou para Felipe.

– Deve ser meu pai. Conversa com ele. Não é o que você quer?

Meio desajeitada, balbuciou:

– Alô?

– Filhão? Você está bem?

– Não é seu filho, é a… – Cuca não proferia uma palavra claramente, tamanha a timidez com que enfrentava o aparelho celular.

– Que mensagem era aquela? Como assim raptado pela Cuca?

– O seu filho está… – Cuca engasgava com cada fonema.

– Isso é impossível, filho. A Cuca é…

– Aperta o quadradinho azul! – indicou Felipe.

Cuca ligou a função viva voz.

– Pai, sou eu, o Felipe!

– Oi, filhão! E a Mi? Está com você?

O celular gritava alto o vozeirão do Ministro. Cuca afastou o aparelho do ouvido.

– Sim, pai! Mas, o celular está com a Cuca. Eu e a Mirela estamos presos numa gaiola e tem uma onça…

– Que estória maluca é essa, filhão?

– Pai, eu quero ir pra casa! – Mirela voltou a chorar.

– Calma querida. O papai vai te buscar. Só preciso saber onde estão…

O Ministro embargou a voz. Cuca compadeceu-se.

– Não sei que lugar é esse! É a casa da Cuca, mas… – Felipe não sabia como orientar o pai.

– Casa da Cuca? – o Ministro quase achou graça.

“Por que fazer sofrer, se podia fazer rir? Por que ser uma bruxa má, se podia ser boa?” ponderava Cuca.

– Ela nos sequestrou e trouxe uma onça para nos comer! – advertiu Mirela.

Cuca tomou uma decisão! Comunicaria ao Ministro que os irmãos regressariam sãos e salvos. Não havia mais com o que se preocupar.

– Filha, não faz sentido. A Cuca é folclore, além disso…

“Algumas coisas não mudam: os adultos continuam pensando que sabem de tudo e, na verdade, sabem de nada” refletiu Cuca, já se preparando para dar a boa notícia para o Ministro.

– …não sequestraria crianças. Ela seria boazinha e atrapalhada demais para isso.

Cuca ficou vermelha.

– Boazinha?! Atrapalhada?! – bradou ao celular, sem qualquer timidez – Eu sou malvada! Ouviu, Senhor Ministro? Malvada!

– Quem está falando? – a voz trêmula do Ministro surpreendeu os jovens.

– Quem? Ora, quem? A boazinha e atrapalhada que vai transformar seus filhos em… em… ratos!

– Cuca?! – por essa o Ministro não esperava.

– Ninguém me chama de atrapalhada! Muito menos de boazinha! Sou malvada! Malvada!

– Calma, Dona Cuca. Eu não…

– Vocês vão ver! Seus filhos vão virar comida de onça! Quero ver me chamarem de boazinha! Quero ver fazerem historinhas coloridas! Vocês só vão fazer filmes de terror! De terror!

– Calma, vamos conversar…

Cuca largou o aparelho falando sozinho e correu para dentro da caverna. Em poucos minutos voltou com uma caçarola cheia dum líquido turvo e fedorento. Os irmãos se encolheram na gaiola.

– Eu não vou beber isso! – protestou Mirela.

– Beber? Ahahahah! Vou jogar sobre vocês! Bastam umas gotas da minha poção para vocês serem transformados em ratos!

– Ótimo! Assim podemos fugir dessa gaiola! – ameaçou Felipe.

– Rapazinho, rapazinho! Para os carnívoros da floresta, pequenos roedores não passam de petisco.

Cuca encheu uma cuia com a poção. Mirela e Felipe se encolheram ainda mais.

– Querem fugir? Fujam. Talvez escapem das onças, jaguatiricas, gaviões… – um estranho som interrompeu seu discurso – Maldição! Esse treco de novo?

Cuca encontrou o celular no chão. Apertou o verde e o azul.

– Alô? Eu gostaria de falar com a Cuca.

– Comigo?! – Cuca surpreendeu-se.

– Sou assessora de imagem. Estou ligando por indicação do Senhor Ministro.

– Assessora de imagem?

– A senhora quer mudar radicalmente a percepção do público quanto a sua imagem, correto?

– Errr… sim. Todos ficam me chamando de boazinha e odeio isso.

– Quer uma imagem maléfica e pavorosa, correto?

– Como sabe?

– O Senhor Ministro me informou. Vocês conversaram, não?

– Sim. Foi, digamos, uma conversa rápida. – Cuca riu em seus pensamentos.

– Oh, desculpe. Serei breve.

– Não foi o que eu quis dizer…

– Tão logo o Senhor Ministro me explicou o caso, acionei meu network e montei uma proposta para reconfiguração de sua imagem. Está interessada?

“Como esse pessoal fala difícil.” pensou Cuca ao responder automaticamente: Sim.

– Iniciaremos com um blog onde serão expostas atividades do seu tenebroso dia a dia…

– Mas, não sei mexer nessas coisas de blog.

– Fique tranquila, você terá assessoria profissional. Por favor, deixe-me concluir.

– Desculpe. – Cuca quis engolir as palavras anteriores.

– Serão criadas parcerias com sites de terror e comunidades sinistras em redes sociais.

– Interessante, eu acho. – Cuca murmurou.

– Em paralelo, ocorrerá a produção de uma graphic novel, trilogia de livros, série para TV, games e um longa metragem para cinema. Imediatamente após a assinatura do contrato, podemos iniciar o cronograma.

– Você fez isso em quinze minutos? – Cuca sentia-se atordoada.

– Desculpe a demora, hoje é feriado. Posso enviar o contrato?

Sem resposta, a assessora continuou.

– A senhora será mais temida que qualquer pacote econômico do governo.

Faltava pouco para convencer Cuca.

– Vou precisar matar alguém?

– Não.

Cuca teve impressão de ter ouvido a assessora segurar uma risada.

– E o que faço com os filhos do Senhor Ministro? Ele deve ter chamado a polícia…

– Será emitida nota desmentindo boatos e explicando que os filhos do Senhor Ministro ausentaram-se da capital para participar de evento de ecoturismo.

– Vocês pensam em tudo, hein? Ok, pode mandar o contrato, anota o endereço…

– Já tenho. Chegará amanhã, juntamente com um aparelho celular. Ligarei para a senhora. Até mais.

– Até… Poxa, e eu pensando que era esperta!

Olhou para a poção, para os jovens e…

 

Nana neném

– Estão livres. – Cuca abriu a gaiola – Cuidado com a onça, ela não almoçou ainda.

Fitaram os olhos da bruxa:

– Você ia realmente jogar aquele líquido nojento em nós?

– Talvez sim, talvez não. – respondeu pensativa.

– Você é sinistra! Vou contar pra todo mundo que quase nos transformou em ratos! – Felipe já se imaginava narrando a aventura para os colegas.

– E se precisar de ajuda com o blog, pode contar comigo! – Mirela esquecera o choro recente.

– Obrigada, crianças. Agora vou mandá-los de volta para seu pai.

– Ah, Cuca! Pode ser mais tarde? Queremos fazer um negócio…

– O quê?

Os irmãos a puxaram em direção à floresta.

– Ecoturismo!

Cuca riu, apertou a mão dos jovens, deu uma olhada feia para a onça, que já lambia os beiços, e iniciou a caminhada.

– Cuca, pensamos numa nova versão para sua cantiga. Quer ouvir?

– Quero!

“Nana neném, que a Cuca vem pegar

Papai está no face, mamãe foi twittar.”

Riram bastante, exceto Cuca, que não entendeu muito bem a musiquinha.

 

FIM