O Pobre Pássaro

vencedor do XVIII Concurso de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista

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Do conforto do meu carro, observo os resquícios do que houve. Alguns ainda insistem com seus guarda-chuvas abertos, distraídos ou prevenidos, não sabem o que perderam: Os pingos batendo no rosto, molhando os cabelos, escorrendo para dentro da roupa, lavando o corpo e a alma; não sinto isso desde criança.

O trânsito virou uma pequena bagunça. Os vidros embaçados escondem estes malditos que não param de buzinar. Por sorte estou parado nesta rua tranquila, e o vai e vem de autos que me incomoda está se desfazendo. Chuva é bom assim, quando refresca, alimenta e acalma. Sem danos ou prejuízos. Sem enchentes, deslizamentos ou desabrigados.

Falei cedo demais. Ali está um pequeno infortunado. Pobrezinho. Pulando e piando ao redor da árvore que deveria ser seu lar até pouco tempo atrás. Ele olha para cima e grita alto. O suficiente para não ser pisoteado, mas não para ser socorrido.

Como pode? Todos vêem seu sofrimento, mas ninguém o acode. Ele está dizendo claramente: “Me coloquem lá de volta! Me ajudem!”. Será que não entendem? Assim foi minha infância, pedi socorro por anos. Ouviam-me? O suficiente para não ser esmagado. Um prato de comida, uma roupa velha. Eu queria mais. Eu queria estudar, ler e aprender. Queria que meu pai não bebesse e que minha mãe não se drogasse. Queria um lar, e que este não fosse um campo de batalha. Eu sei que queria demais. Eu queria que surgisse um anjo e mudasse tudo em um estalar de dedos. Não preciso dizer que este anjo nunca apareceu. Apenas surgiam demônios, o tempo todo.

O que estou dizendo? Agora estou eu aqui contemplando o pobre pássaro lutar por sua vida, e o que faço? Nada. Eu poderia desligar o rádio, sair do carro e ajudá-lo. Poderia devolvê-lo ao ninho aconchegante e ao calor de sua família. Por que não? Medo? Vergonha? O que vão pensar de um marmanjo subindo em uma árvore? Será que vou rasgar minha calça nova e cara? Como sou mesquinho. O que aconteceu comigo? Sempre odiei os que não me ajudaram, e agora que estou numa situação um tanto melhor, o suficiente para devolver um pouco do que não me deram, nego? Pobre pássaro. Pobre de mim. Sinto-me mal, mas não me movo. Penso em como ajudá-lo, calculo todos os movimentos, e faço absolutamente nada. Será que era assim? Será que as pessoas faziam o mesmo comigo? Chego a pensar que a culpa é toda do pássaro. Mas não era minha culpa! Eu não queria estar sujo, não queria estar mal vestido, não queria sequer estar vivo. O pobre pássaro não. Ele quer viver e está usando toda sua energia para isso. E ninguém faz nada! Neste momento eu quase me desespero; imóvel, me enojo.

Graças a Deus, chegaram nossos heróis! Não preciso mais me martirizar e, principalmente, posso continuar onde estou. São crianças, é óbvio. Apenas elas fazem o que pensam ser correto sem se importar com opiniões alheias. Nossos dois amiguinhos olham para o pobre pássaro, para a rua, para a calçada e, finalmente, para cima. Ambos têm a mesma idade, ou pelo menos a mesma altura. Localizam o ninho. Parecem inteligentes. Eu também era, mas acho que nunca perceberam; é difícil pensar quando se está com fome. Os meninos parecem bem alimentados, podem bolar uma maneira de alçar o pobre pássaro ao topo da árvore.

Tudo pronto. Parece que os garotos conseguiram traçar um plano. Um deles tenta pegar o pássaro. Ele foge. Pula pra cá, pula pra lá. Que engraçado! Rio sozinho, ninguém percebe, os vidros escuros do meu carro me protegem de tudo, até do que não quero. Os meninos param por um momento. É difícil ajudar alguém que não quer ser ajudado, assim como é difícil se entregar nas mãos de alguém. Quantas vezes fugi. Sempre foi tão difícil saber o que era bom ou ruim. Pensando bem, talvez meu anjo tenha aparecido, num dia chuvoso como esse, quando as nuvens já tinham ido e apenas eu ainda estava molhado, mas como eu iria saber? Não deve ser fácil reconhecer um anjo, ainda mais quando se tem medo. Medo e fome, eu deveria ter respondido isso quando perguntaram sobre minha infância, naquela entrevista, para aquele emprego que me negaram.

Por mais que meus pensamentos sejam tristes, não consigo parar de rir: O pobre pássaro agora virou o Garrincha! Dribla os garotos com grande facilidade e desenvoltura. Agora percebo que ele não é tão filhote assim, deve ter a mesma idade dos meninos, respeitando a evolução de cada espécie, é lógico. Acho que vou ajudá-los. O pobre pássaro é esperto demais para eles. Em três as chances serão maiores. Pego o pássaro, dou na mão de um deles e volto para a segurança de meu veículo. Rápido e fácil. Não me exponho tanto e vou embora sem me sentir o último dos homens.

Vamos lá! Desligo o rádio, pego a chave e me preparo para sair. Ouço alguns estampidos, são tiros, conheço bem este som. Três homens surgem correndo. Armas em punho. Os garotos se assustam, o pobre pássaro quase é pisoteado, pula da calçada para a rua, os homens entram no meu carro.

– Vai! Pisa! – gritou o homem no banco do passageiro.

Olhei para os meninos, estavam em segurança.

– Vai logo! – gritou um dos rapazes no banco de trás.

Liguei o carro, engatei a primeira. O pobre pássaro estava bem a minha frente.

– Vai, Gavião! Daqui a pouco isso aqui vai estar cheio de polícia.

– Mas, o pássaro… – não terminei a frase.

– Do que você está falando? Você está louco, Gavião?

Por um doce momento eu havia me esquecido que era o tal Gavião. Meu companheiro, que costumo chamar de amigo, sentado no banco do passageiro, colocou a arma na minha cabeça.

– Vai! Vai! – gritaram meus amigos no banco de trás.

O carro passou cantando pneus sobre o pobre pássaro. Diminuí a velocidade e busquei por ele no retrovisor. Com um pouco de sorte sairia ileso.

– Anda! Vai logo!

Todos gritavam. Acelerei. O cano gelado na minha têmpora não era nada agradável. O frio desceu pela espinha. Sei que meus amigos me matariam sem titubear. Nunca fui bom para escolher minhas companhias, até hoje não sei distinguir os anjos dos demônios.

Poucas curvas depois já estávamos longe. Minha habilidade na direção foi minha carta de alforria da miséria.

– É isso aí, Gavião! Tu é bom mesmo! – disse meu amigo no banco do passageiro, enquanto baixava a arma.

– Não sei, não. Olha aí na frente. – respondi.

Uma viatura atravessou um semáforo vermelho e parou em nosso caminho, não havia como prosseguir. Puxei o freio de mão, um cavalo-de-pau impossível naquela rua estreita, eles vibravam quando eu fazia isso, mas desta vez não havia o que comemorar. Outra viatura surgiu, era uma emboscada. Uma nova manobra e nosso carro estava atravessado no meio da rua. Saquei minha arma. Dois policiais de cada lado, forças iguais, chances iguais. Estou tão acostumado quanto cansado disso tudo: É viver ou morrer, mais uma vez.

 

FIM